Hoje dia 22 de abril é o dia da Terra, infelizmente acabo de receber uma notícia triste do Biólogo Marcelo Hübel de São Bento do Sul, me pedindo auxílio. O Marcelo trabalha no Departamento de Meio Ambiente da cidade, atende no ano centenas de pessoas, que buscam por orientação nas questões ambientais. A mais recente foi de uma moradora da localidade de Rio Natal, que por sinal é muito bonita, o filho dela capturou um gavião na beira da estrada. Na visita feita pelo Marcelo ele notou que o gavião era muito dócil, apresentava a cauda e ponta das asas com as penas gastas, além do ventre amarelado de terra, que demostra ser uma ave que anda e não voa. As asas não apresentam sinais recentes de estarem quebradas, embora uma destas não fica próximo do corpo, apresenta deformação das penas e não está anatomicamente perfeita no sistema ósseo.
Gavião Pombo – Leucopternis lacernulata - Capturado em Rio Natal
Segundo o biólogo a ave não sente dor, mas também não voa, provável que tenha quebrado a asa e sua recuperação na junção dos ossos não foi perfeita. Deve ter levado um tiro na ponta da asa esquerda e ficou andando pelo solo até a recuperação, justificando as penas desgastadas e sujas. O Marcelo alerta quem é pego caçando pela Polícia Ambiental, tem a arma apreendida e pode pagar multa de R$10.000,00 por ser uma ave com risco de desaparecer, mas os crimes ambientais estão suscetíveis a interpretação no auto de infração podendo chegar em até 50 milhões de reais, podendo responder por um ou mais processos sendo o: civil, penal e administrativo. Mesmo assim, vejo que muitas pessoas não respeitam e nem temem as leis ambientais de proteção à fauna, por acharem que elas só existem no papel, em muitos casos, pagasse a multa e se responde ao processo em liberdade.
Muitas pessoas não gostam dos gaviões porque estes caçam passarinhos, mas é parte do ecossistema e da cadeia alimentar. O que poucos sabem é que existem variações alimentares conforme a espécies, alguns se alimentam de moluscos; peixes; anfíbios como sapos, rãs e pererecas; roedores; répteis como lagartos e serpentes; mamíferos como ratos, macacos, quatis; artrópodes como gafanhotos, percevejos, formigas, cupins, aranhas e vespas e até de animais subterrâneos como a cobra-de-duas-cabeças ou ainda se alimentam de carniça e até frutas, mas logicamente alguns se alimentam de outras aves. É curioso que ao regurgitar o alimento saem penas e ossos em forma de bola, os ossos são digeridos.
Imagem: Rio Natal -São Bento do Sul/SC – Ricardo Ribas
A diversidade é grande, algumas espécies são especialistas e se alimentam apenas de determinado ser vivo enquanto outras apresentam um leque maior no seu cardápio. O fato é que todos apresentam sua importância no equilíbrio a biodiversidade. Em relação a água não são exigentes podendo encontra-la apenas em seu alimento, tal qual as corujas. Já em relação a forma de caçar é das mais variadas, algumas espécies preferem ficar a maior parte do tempo em pouso esperando a presa enquanto outras preferem planar e algumas preferem os vôos rasantes.
A maior ameaça dos gaviões está associada a alteração do habitat ou perda da fonte alimentar, como exemplo citamos a tilápia que se alimenta de plantas aquáticas, onde ocorrem caramujos que são o alimento do gavião caramujeiro, mas ainda a caça torna-se umas das maiores ameças. Os gaviões são o topo da cadeia alimentar, e portanto armazenam a energia da cadeia alimentar, mas alguns estudos demostram que, por esta razão, pela ação de agrotóxicos a casca do ovo destas aves está enfraquecendo, prejudicando a espécie.
Biólogo Marcelo Hübel examinando o Gavião Pombo
A espécie encontrada em Rio Natal é chamado cientificamente de Leucopternis lacernulata e popularmente de Gavião-pombo ou Gavião-pombo-pequeno, situação interessante pois existe uma espécie muito parecida mas é maior e se distingue em relação a cor da cauda. Esta espécie é ameaçada de extinção. O gavião encontrado já é adulto, tem o tamanho de 43cm do bico até a ponta da cauda e 96 de envergadura. Se caracteriza por vôos sobre as copadas de árvore e é facilmente visto quando pousado pela brando de seu ventre. Se alimenta de insetos como besouros ou aranhas e pequenas cobras. Prefere a encosta atlântica principalmente no vale, conforme a paisagem de Rio Natal.
A moradora que encontrou a ave estava tratando o gavião com peixe , o Biólogo Marcelo Hübel recomendou a substituição por carne moída e se possível colocar algum inseto entre o bolo de carne, que fez prontamente, também vai adaptar no galpão onde a ave está com poleiros de diferentes diâmetros, para o gavião exercitar a musculatura dos dedos. O departamento de Meio Ambiente vai complementar o registro de atendimento e enviar para a Polícia Ambiental de Joinville para possível encaminhamento para algum zoológico. Ele me enviou todas estas informações via email hoje e pediu para verificar a disponibilidade de um Zoológico que queira adotar o animal, respondi prontamente que caso a polícia ambiental, não compareça para recolher o animal e encaminhá-lo para o Ibama, ele mesmo deve entrar em contato com o órgão que deve atender ao chamado. Também liguei para meu amigo o Biólogo Beto, especialista em Manejo de Animais Silvestres, que confirmou a minha recomendação e acrescentou que os zoológicos não podem receber a ave sem a autorização do órgão competente, pois poderia caracterizar uma transação irregular e até de compactuar com o tráfico de animais silvestres, mesmo com toda a boa vontade os zoos devem seguir a regra para evitar problemas.
Entrando em contato com o Ibama que possui a lista dos Zoológicos legalizados o órgão encaminhará o animal para o mais próximo da região, acredito que será o de Pomerode/SC. Enquanto isso, a moradora local faz questão de cuidar do gavião durante o período de espera. Torço para que o animal encontre um Zoo adequado, já que suas condições atuais o impedem infelizmente de ser devolvido para o habitat natural. Embora a notícia seja triste, a atitude desta senhora a qual não sei o nome, em ligar, cuidar o animal e adaptar uma área para ele em sua casa até o socorro chegar, me faz crer que diante de tantas crueldades feitas pelos humanos aos animais, ainda posso ter fé nas pessoas.
Feliz Dia da Terra!
Fonte: As informações do caso e da biologia do animal, bem como, as imagens foram cedidas pelo Biólogo Marcelo Hübel do Departamento de Meio Ambiente da Cidade de São Bento do Sul/SC.






Olá Daniela,
Nas minhas andanças em meio aos manguezais tenho notado um significativo aumento na quantidade de gaviões e outras aves. Sabe me indica um site onde possa encontrar informações que me auxiliem a identificar estas aves?
Quanto ao dente de jacaré, é melhor falar direto com a Dione, ela sabe melhor sobre estes artefados.
Abraço.